27 janeiro 2026

eli ríos / evaporar + arrepio

 



 

 
No sorriso louco das baleias
habitam os poemas escritos
com aqueles lápis musicais
enquanto eu sonhava a minha morte
sob as rodas do comboio e o sapo cuspia versos.
Apaguei as pistas e barulhei-as nas estrofes mas
o colchão absorveu todas as gostas das tuas veias.
Escuto as sereias da GNR no outro lado dos portões
e sei que já está tudo em fora: deixo-me esvaecer entre as
linhas
sendo consciente que a poética ganhou o jogo.
                                                                   Derrida sorri:
“Nunca seremos capazes de fugir da poesia.
                                                   Nem sequer os sujeitos.”
 

 
eli ríos
se calhar não é o tempo o que importa
editora urutau
2019
 



26 janeiro 2026

daniel jonas / lenha

  
 
A geada que crepita da janela,
o lenho, tempo
sobre o tampo:
a chaleira imperturbável e fria.
 
Se te separares da mãe que te envolve
vestirás o manto de neve
e deixarás a casa com o teu machado
tão afiado como um tordo
 
rumo a um sacrifício hebreu.
Expiarás in extremis no lenho
o musculoso braço da degola,
já longe o fumo do holocausto
no casebre, fumo sobre o charco.
 
Apenas os teus dentes, blocos de gelo,
loucos percutem,
ameias sobre ameias,
muralha fruste contra o frio.
 
Infliges a lenha.
O silêncio atordoa.
Toda a minúcia do que vês:
ligustro, roseira brava, alfazema,
não achou ainda caminho
para o poema.
 
Apenas, vinte centímetros de cinzento,
o migrante gregário,
o boémio sedoso
com as bagas dos seus olhos
rolando para os mirtilos de Minsk
 
se aproxima
no aprumo oleoso.
 
Os ouvidos zunem.
 
A cada assobio do teu gume
um tordo cai
silenciado:
à volta do patíbulo truncado
um massacre de pássaros.
 
O teu machado mais afiado
do que este vento
ou este gelo
a inteira a natureza.
 
 
 
daniel jonas
bisonte
assírio & alvim
2016





25 janeiro 2026

vasco graça moura / cedros. mateus 97

  
 
à meia-noite os cedros quando o céu
é de um azul-negro ilimitado são
mais escuros do que a noite
na sua transparência. escuto os
 
sons distantes, algum cão que ladra, um
altifalante a quilómetros daqui, o pio
de uma ave nocturna não sei onde.
à meia-noite os cedros são a imóvel sentinela.
 
as fachadas são barrocas nas suas cantarias,
uma ou duas janelas estão iluminadas,
há os passos do guarda sobre o saibro,
as rãs no lago calaram-se e o rumor
 
é agora apenas o de uma água imaginária.
 
 
 
vasco graça moura
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

24 janeiro 2026

ana luísa amaral / entre o inferno e os anjos

  
 
Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
 
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
 
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
 
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
 
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
 
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
 
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
 
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
 
 
 
ana luísa amaral
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




23 janeiro 2026

eduardo pitta / dois poemas

 


 

1
 
Os elefantes da rua 79
 
A pé de Union Square para Central Park West
hesitas quanto à natureza do travo que trazes
agarrado à língua.
É o frio a arder na boca sempre vulnerável
ou só o bitterness
 
do Chilled Pineapple-Moscato Zabaglione?
Até que, de repente, os elefantes
olham para ti com irreprimível garbo
e nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.
 
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada, perplexa do décor manuelino
que a rodeava, também não sabia.
Mas foi naquele átrio que tudo começou.
Trinta anos, trinta
anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto. Mudou o quê? Os calções de cáqui
com ravina e mar ao fundo.
Agora, blindado em caxemira, atravessas o parque
entre fiapos de neve e a coreografia dos batedores.
 
A tarde cai, mas o rodopio de tanto olho fulgurante
provoca um clarão.
Muito jovens, ignorantes de simetrias,
não sabem ainda que um dia irão cruzar-se com o flash
de uma cena assim.
 
( – para que se repita uma cena – cf. Borges)
 
 
2
 
O divã e a caçada sexual
 
O dr. Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
 
Sebastian não teve tempo. outros, como ele,
descobriram um dia que a luta dos negros freedom fighters
era parecida com a sua
e trocaram as voltas à simbologia da mamã.
Eles sabem que a rua é um campo de batalha
 
seja na Bowery ou nos socalcos da Ponta
Vermelha.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
 
(– dr. Cukrowvicz e a senhora Venable – cf. Tennessee Williams)
 
 
 
eduardo pitta
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 





22 janeiro 2026

helga moreira / tarde sem fim

  
Abrem-se portas, fecham-se medos,
pela noite fora virão os pesadelos;
rasga-se o brilho suspenso nos caminhos,
rasgam-se entradas e saídas,
estende-se
o sol por onde
ainda é visível
um ponto de luz, pássaros
cinzentos, ninhos e o meu espanto,
o meu espanto por tudo isto demorar assim;
um corredor de bancos corridos,
tardes sem fim, um rio,
escadas de cantaria,
 
os jogos no recreio, uma tília,
um aparo, um tinteiro, um quadro e giz
 
Virão depois
as frases rasuradas, os calendários,
os encontros na penumbra,
um sopro,
o tempo vivo, o tempo morto
– uma figura em estátua e jardim –
o sorriso aos tombos
um som
 
 
novembro 1997
 
 
 
helga moreira
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 




21 janeiro 2026

josé emílo-nelson / no fim da infância

  
 
I
 
Ela, a pequena infância, andará ainda aí sentada com um velho
nas nádegas e
o crucifixo saltando no pescoço com a negra mão de talismã
buscando o brinquedo na vitrina
já contemplado.
Ela, a infância, bordando com dedal
botões de rosa em vez do cardo da minha lapela.
Ela deixada ao acaso
Na borda do velho tanque de água
que a rã tomba.
Ela permanece correndo pelo peão sonoro
e pelo cão metálico como a alma
das mães a quem Cristo deu a mantilha para assoar o ranho da placenta.
 
 
II
 
Nunca me esperei ver numa corda atada por dentro do canto de um melro. Sonhei-me, bati
no homem de idade que lhe guardava o voo. Fez pena, agarrava os ossos, porque já mal os
seus olhos cegos me seguiam a bater. É assim. Porquê, interrogou-se. É tão evidente.
 
 
III
 
Lasciatemi morire
 
Lou, je parle une langue morte, maintenat que je ne parle plus.
 
Henri Michaux
 
Nenhuma palavra obedeceu,
trazia comigo um ramo seco, a voz
manchada pelo cipreste a uma janela,
a que acolheu a cor da pele, que teve e tem
a cera de uma
morta cedo de mais.
 
Eu ouvia-me dizer (e tu a mim?),
Posso dizer agora? (Lasciatemi morire, diz Monteverdi.)
 
 
 
josé emílio-nelson
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 



20 janeiro 2026

paulo da costa domingos / não desceu à terra?...

  
 
Santa Catarina, o melhor lugar
para os irmãos correrem
de um lado para o outro com bilhas de gás
ameaçadores: mau vinho pior poesia.
 
Ou refulgiam imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se ao vento sul.
Foi há tanto tempo, foi no princípio
do bando; entrava-se e saía-se numa correria
 
por portas a respirarem
sobre os ombros de miúdos
ainda sem idade para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do corpo, nas comissuras dos lábios.
 
Carne um bocado brutalizada
que algum poema coroa
a bem da Literatura… Porque no princípio
era o bando, o Verbo do terror
 
com iguanas a estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem preferisse dormir
apesar do ruído dos livros,
a cabeça pousada no extintor
 
à espera de uma maré silábica, salina
… nessa altura ainda não sabíamos
quão injuriosa pode a Cultura ser: é o fim
do século.
 
Afinal, que temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
 
com ele vão pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos da talha. –
Do outro: memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de arremesso, cedem os vitrais
 
a uma vontade caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o conhecimento… o plaino
 
Afiado da falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a gavetas cheias de cabras que tilintavam
 
à mínima espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora, mora o inimigo! Era só
sair a acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos pela televisão.
 
Dias torcidos a ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em lamúrias de sangue
mal drogado nas veias, e depois o tal regresso
ao noticiário, ao mito, à museologia.
 
Posso neste palco afinal
lembrar dessa Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar que cede, um petroleiro
que explode, poemas jacentes
 
domando o mal, o sangue difuso
em telefonemas sussurrados. Deslizes
mínimos corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre sempre os segredos roubados
 
ao mundo canalha. É a festa
a celebrar o trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas da roupa enroladas nas pernas
para que os tropeços da inspiração
 
dêem fruto: uma guerra e peras
com episódios escolhidos contra a ideia
latente da arca de cânfora…
ou da bilha do gás. Exaltação, peculiares
 
divindades, vinde sobre os poetas derramar
a terrível agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
 
 
 
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




19 janeiro 2026

josé viale moutinho / quinteto de memórias nos meus olhos míopes

  
 
1
 
esta tarde de sábado é a pior das tardes de sábado.
acabei de escrever um outro nome no reverso da terra.
o teu nome, e o pó das palavras escorrega, lentamente
escorrega, na ampulheta. doem-me estes olhos de tanto
os fixar nos jornais antigos. é a letra miúda, oca, negra,
onde tudo se diz, arma e se disfarça, que fode quase tudo:
as asas deste anjo que sou são de paus, papel e cera velha,
os braços e as pernas como canas da índia mal descoberta,
as grilhetas de um fraco metal transformado na escória
apanhada a eito nas escombreiras da serra de santa justa.
 
 
2
 
eis a ilha mal desenhada, eis o penedo do sul com a espada
cravada por um rei perdido em lendas de guerras africanas:
a tempestade turva a limpidez das águas próximas, as nuvens,
as negras nuvens que pairam sobre mim, em março, como hoje,
acabam por afastar-se, e agora o penetro no jardim proibido,
onde estão todas as fontes da cidade, sem água, sem mágoa,
silenciosas cúmplices dos jovens amantes entre os arbustos.
afinal, que me importa a ilha, esta ilha, as suas líricas gaivotas:
é que o ogre lá está devorando os pequenos ogres e o resto,
mesmo esse teu nome e os teus manuscritos abandonados.
 
 
3
 
caminhando, solitário caminhar o meu, olhando o rio, os muros
que se erguem do lado de cá do rosto, mal anoto a primavera,
a estação dos derradeiros comboios. sábado? sábado? disse
sábado? revolvo-me no sofá, escondido da luz coada da tarde.
é uma tarde de merda, já disse, em que deveria estar diante
de um espelho, e de um velasquez, os dedos do pianista
mal tocando as teclas: as variações goldberg são um tributo
de bach para que o silêncio seja mais harmonioso. harmonioso?
aproximas as tuas mãos das minhas, este sábado é a entrada
de um velho museu de história natural,, pálido e com algum pó.
 
 
4
 
as minhas fontes, na verdade, não são versos nem multidões,
nem fantasmas, nem música, proscrito dos mares e do areal;
elas afundam-se numa tarde de sábado, submergem na água
de lavar a louça da semana. e ainda na verdade, esse homem
que atravessa a sala e penetra na parede do quarto de dormir
não é fernando pessoa, quem diria? trata-se de jão roiz
castelo branco: partem tão tristes os tristes. infelizmente
nasci com a pátria bem doente e um amargo sorriso afivelado:
poe, penha, pessanha, guillevic, éluard, machado, e uns versos
perdidos dos seus poetas, talvez demasiadas prosas sem teatro.
 
 
5
 
abro as mãos diante do espelho do quarto de banho: abro
a boca e mostro as línguas a mim mesmo, tenho bolhas
de medo e riscos de nascenças nas mãos, mais manchas de
veneno nas línguas. o espelho embacia-se, a água da torneira
é acastanhada, o telefone toca e é engano, mas de novo
digo que esta tarde de sábado é uma merda de olhos postos
em mim. de um bolso da camisa tiro o papelinho do mapa
das fontes da ilha onde nasci, de outro um belo cd-rom
com as raízes de quem sou, a crónica genealógica deste sangue
perdido, deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.
 
 
                                                                 Porto, 19 de Março de 1996
 
 
 
josé viale moutinho
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

18 janeiro 2026

carlos de oliveira / descida aos infernos

  
13
 
Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982



17 janeiro 2026

charles simic / uma volta



 
E depois há a nossa Rua Principal
Que se parece com
Um lugar de filmagens abandonado
Cujo director
Ficou sem dinheiro e sem ideias,
Despedindo sem avisar
A equipa toda,
E a jovem e bonita actriz
Vestida para o seu papel
De pé com um sorriso abatido
Na montra empoeirada
Da loja para noivas de Miss Emma.
 
 
 
charles simic
o último soldado de napoleão
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018






 

16 janeiro 2026

ingeborg bachmann / desprende-te, coração


 

 

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
 
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
 
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
 
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
 
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
 
 
 
ingeborg bachmann
o tempo aprazado
trad. judite berkemeier e joão barrento
assírio & alvim
1992




 

15 janeiro 2026

hans-ulrich treichel / correr na periferia

  
 
Pelo parque de estacionamento, rua
abaixo até ao rio, ao longo do milheiral,
entre pés de milho altos como um homem,
o automóvel do costume, vidros embaciados, uma
escavadora a tirar lama, ervas
em flor, vento e murmúrio de folhas, goteja
água sob o estrondo da ponte, depois ainda
asfalto, picadas no peito, céu
de chuva, o parque de estacionamento, em casa.
 
 
 
hans-ulrich treichel
como se fosse a minha vida
trad. colectiva
poetas em mateus
quetzal editores
1994